De um lado, o presidente do Sport Clube Internacional admitindo que a retração dos investimentos das casas de apostas tornou muito difícil encontrar um novo patrocinador master capaz de sustentar os valores praticados nos últimos anos. Do outro, o Cuiabá que segue há quase dois anos com o principal espaço de sua camisa vazio ao se recusar a aceitar dinheiro do setor.
Uma confessa abertamente a necessidade do dinheiro. Outro, dando as costas e ele, assinou um atestado de inviabilidade na Série A – condição que o clube do Cerrado ocupou por quatro temporadas. Não são histórias opostas, mas duas faces de uma mesma moeda: o futebol brasileiro e sua extrema dependência de um mercado que não controla, cujos preços podem se mostrar insustentáveis e sobre o qual incidem cada vez maiores incertezas e pressões regulatórias.
O futebol brasileiro apostou tudo nas bets.
Em apenas dois anos, o valor dos patrocínios master dos clubes analisados pela Jambo Sport Business saltou de R$ 496 milhões, em 2023, para R$ 1,117 bilhão, em 2025 - alta de 125%. Naquele ano, 18 dos 20 clubes da Série A passaram a carregar casas de apostas na propriedade mais valiosa de suas camisas. Não se tratou da mera substituição de patrocinadores por empresas de um setor moderno. A disrupção das bets alterou irracionalmente o que se vinha praticando neste mercado.
Há uma explicação econômica simples para isso. Para um banco, uma montadora, uma farmacêutica ou uma empresa de alimentos, o patrocínio é sobretudo publicidade. A marca paga pela exposição e espera que, ao longo do tempo, essa visibilidade construa reputação através do branding. Só aí, num segundo momento, a reputação se converteria em vendas.
Para uma casa de apostas é muito diferente. A camisa funciona como porta de entrada de uma operação comercial imediata. O torcedor vê a marca (às vezes já no QR Code da própria tela), abre uma conta na hora, deposita dinheiro na hora (via PIX) e começa a gerar receita diretamente mensurável. Mercado algum possui este grau de urgência e de instantâneo – o jogo já vai começar e as apostas precisam ser feitas. Deste modo, pode-se dizer que o clube não oferece apenas exposição, entregando uma comunidade mobilizada, emocional e recorrente. A esta, convencionou chamar de apostadores.
Uma empresa tradicional teria de comprometer praticamente todo o orçamento de marketing para disputar o peito de uma grande camisa. Para uma bet, esse investimento até é alto – baixos são os custos operacionais, equipe, funcionários registrados ou pagamento de impostos. Tudo isso acontece no balneário mais deslumbrante e isento de impostos que o planeta puder oferecer. É caro investir em marketing para companhias normais. É barato para as bets.
Quando as bets recuam de um patrocínio, não existe uma fila de bancos, montadoras ou farmacêuticas ávidas por substituirem os R$ 150 milhões ou R$ 200 milhões que dispendem. Se o setor anterior foi expulso, gerou-se uma nova insustentável leveza de ser.
Os sinais da ressaca já aparecem.
Internacional e Grêmio trocaram contratos consolidados, na faixa de R$ 30 milhões, por acordos anunciados de R$ 50 milhões com bets. Mas no caso deles veio a inadimplência (que tantos nem imaginam que aconteça). Dali veio o rompimento e a descoberta de que o mercado não estava disposto reabsorvê-los naquela prateleira. As propostas que o Grêmio passou a receber no “pós-bet” recuaram para algo entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões.
O Vasco viu seu patrocínio saltar de R$ 22 milhões, em 2023, para aproximadamente R$ 70 milhões em 2025. Encerrado o ciclo, permaneceu mais de seis meses sem patrocínio. Um novo contrato foi finalmente anunciado, sem divulgação oficial do valor e com divergências internas por parte da direção, que o considerou baixo. Quem não quer valores na casa das centenas de milhões agora?
Em janeiro, o Santos rompeu um contrato que previa R$ 51 milhões fixos com a 7K. A Novibet entrou pagando R$ 35 milhões garantidos. Para alcançar os R$ 85 milhões variáveis que são possíveis, será preciso um engajamento quase irreal de torcedores na plataforma. O patrocínio deixa, assim, de ser apenas publicidade e passa a virar uma espécie de sociedade em apostas
O Bahia rescindiu seu acordo de aproximadamente R$ 40 milhões com a Viva Sorte Bet. O substituto ocupou o espaço por somente três meses. Já o Cuiabá, do início desta matéria, preferiu manter a camisa limpa, promovendo a adequação de despesas à receita disponível. Seu presidente trata a recusa como uma escolha moral diante dos danos sociais produzidos pelas apostas.
O caso mais espetacular continua sendo o do Corinthians. Em 2023 – dia desses, portanto - a Neo Química pagava R$ 17 milhões anuais. Em janeiro de 2024, a VaideBet ofereceu R$ 120 milhões por temporada: aumento de 606%. Cinco meses depois, o acordo acabou em meio a um escândalo envolvendo comissões pagas e foi parar nas páginas policiais.
Nem isso fez o preço da camisa voltar à realidade anterior. A Esportes da Sorte entrou inicialmente com um contrato de R$ 309 milhões por três anos e, em fevereiro de 2026 renovou por R$ 150 milhões fixos anuais e possibilidade de chegar a R$ 200 milhões. Comparado ao patrocínio de 2023, o aumento é 782% na parte fixa e de inimagináveis 1.076% no valor potencial,
Tamanha dependência se torna perigosa em clubes e SAF’s incrivelmente endividados, como é o caso da maior parte dos brasileiros. O patrocínio de uma bet entra no orçamento como se fora fato historicamente consolidado. O clube aumenta salários, contrata jogadores, antecipa receitas, oferece garantias e assume compromissos permanentes com um dinheiro que pode desaparecer bem antes dos termos do contrato.
A casa de apostas pode romper o contrato, perder autorização, sofrer uma investigação ou simplesmente concluir que novos clientes por meio daquela camisa deixaram de compensar. A folha salarial, as parcelas das contratações e as dívidas assumidas, porém, ficam como desagradável lembrança.
O risco aqui relatado não é uma abstração brasileira. A Premier League decidiu retirar as marcas de apostas da parte frontal das camisas a partir da temporada 2026/27. A decisão foi anunciada oficialmente pela própria liga Nos Países Baixos, o patrocínio de clubes, competições e atletas pelo jogo virtual está proibido desde julho de 2025. O próprio governo holandês apresentou a medida como proteção especial dirigida a jovens. Itália e Bélgica também adotaram restrições, ainda que enfrentem pressão dos clubes e tentativas de rever as regras.
No Brasil, a discussão deixou de ser distante. Um projeto que proíbe publicidade de bets na cidade de São Paulo avançou na Câmara Municipal e provocou reação de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, que recebem juntos cerca de R$ 350 milhões fixos por ano
Não é necessário imaginar que todas as casas de apostas desaparecerão para compreender o risco. Uma bolha também estoura quando o dinheiro continua existindo, mas os preços retornam à faixa do que eram anteriormente praticados.
Este talvez seja o ponto mais perigoso. Os clubes brasileiros não estão tratando os valores atuais como uma bonança passageira. Estão incorporando-os como novo piso de mercado. Quando um contrato de R$ 50 milhões termina, ninguém procura outro de R$ 30 milhões: procura-se alguém que pague R$ 50 milhões ou mais, porque a despesa já foi construída sobre essa expectativa.
Mas o mercado tradicional não acompanhou essa inflação. E as próprias casas de apostas começam a selecionar melhor os clubes, reduzir garantias, atrelar pagamentos à aquisição de clientes ou simplesmente abandonar os contratos e clubes menos lucrativos.
E o dinheiro dá adeus às despesas por ele convidadas.
Quando acontece num clube organizado, haverá cortes, redução de investimentos e perda de competitividade. Mas se acontece num clube asfixiado, sem fluxo de caixa ou não protegido pelo benefício fácil da recuperação judicial, o efeito pode ser devastador sobre fornecedores, trabalhadores e credores.
Como sobreviver a um apocalipse pós-bet? É justo que, nestes casos, o próprio futebol brasileiro acabe pagando pela aposta que deu red?
Vinicius Paiva
O Idealizador