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Flamengo · Internacionalização

É possível o Flamengo ser o primeiro clube global brasileiro?

Na semana em que o Flamengo foi o único time de fora da Europa presente na lista dos finalistas de “Melhor Clube Masculino” da Bola de Ouro/France Football, uma série de acontecimentos concomitantes deu força ao questionamento presente no título desta coluna: seria possível o Flamengo finalmente implementar a antiga fantasia brasileira de internacionalização, se tornando o primeiro clube global brasileiro?

Flamengo entre os finalistas de Melhor Clube Masculino da Bola de Ouro 2026

À ordem dos acontecimentos. Após anúncio da camisa vencedora do “Manto da Nação” – concurso entre torcedores que elegeu uma nova camisa para o Flamengo, em 03 de setembro, o Ministério da Cultura do Peru se pronunciou, via rede social X, exaltando a homenagem da camisa escolhida àquele país, pelo design que remete às misteriosas “linhas de Nazca” (patrimônio mundial andino). No dia 08 de setembro ocorreu a escolha do Flamengo para concorrer à Bola de Ouro, ao lado de Arsenal, Bayern de Munique, Bodø/Glimt e Paris Saint-Germain. Por fim, no dia 10 uma cena chamou atenção: após o Flamengo derrotar o Independiente del Valle em Quito, um grupo de equatorianos trajados com a camisa do Flamengo entoou, em espanhol, cânticos de incentivo ao clube carioca em plena arquibancada do Estádio Atahualpa – num raro momento de endosso local a um brasileiro em um país da América Espanhola.

Camisa vencedora do Manto da Nação inspirada nas linhas de Nazca Manifestação do Ministério da Cultura do Peru sobre o Manto da Nação

Há muito, clubes brasileiros miram quase obsessivamente uma suposta “internacionalização da marca” que geralmente não passa do agendamento de alguns amistosos fora do Brasil ou da contratação de atletas latino-americanos. Apenas recentemente, poucas agremiações (com destaque para o próprio Flamengo, através da Flamengo TV) começaram a olhar para a produção de conteúdo e transmissões de partidas em língua espanhola.

Torcedores equatorianos com camisas do Flamengo em Quito

Quando assinou contrato com a Adidas, em 2012, um dos chamarizes era a inclusão do Flamengo entre os chamados “clubes globais” da fornecedora alemã. Apesar de hoje ser mais fácil encontrar seu uniforme em lojas da marca fora do Brasil, isto, de fato, nunca aconteceu. Atualmente, a elite global da marca é composta por Real Madrid, Manchester United, Arsenal, Bayern de Munique, Juventus e Liverpool. Estes seis clubes recebem prioridade máxima em distribuição mundial, coleções de lifestyle e camisas autênticas em padrões claramente diferentes dos propiciados ao Rubro-Negro.

No entanto dois processos vêm funcionando como uma espécie de catalisadores da imagem internacional do Flamengo. A ascensão da “era das redes sociais”, que descolou o clube de seus concorrentes em engajamento e receitas. E o advento da segunda “era de ouro”, que fez com que, desde 2019, o Fla ganhasse três títulos da Libertadores e múltiplos torneios nacionais, num processo que não parece ter prazo de validade.

Em 2015, quando o Flamengo contratou Paolo Guerrero, seu status de ídolo máximo do futebol peruano levou as redes do clube a verificarem um primeiro boom de visibilidade e seguidores daquele país. De maneira afortunada, duas das três Glórias Eternas flamenguistas se passaram no mítico Estádio Monumental de Lima. A outra coroação aconteceu em solo equatoriano – exatamente o país onde se verificou o embrião da formação de torcedores locais, conforme falado acima. Não deve ser coincidência.

Imaginar que um clube brasileiro transborde fronteiras no nível que se verifica com times da Premier League, Real Madrid e Barcelona - efetivamente mundiais, especialmente na Ásia – soa como devaneio para clubes de um país do sul global, no momento. A primeira conquista seria nos arredores, uma vez que a falta de alinhamento cultural e linguístico faz do Brasil um estranho em seu próprio ninho de vizinhos. Boca Juniors (principalmente) e River Plate são, hoje, marcas mais internacionais do que o Flamengo, possuindo torcedores verdadeiros em países hispânicos. O Super Mundial de Clubes dos EUA deu prova disto.

Este, contudo, é um processo reversível no longo prazo. O remédio passa exatamente pela função que vem sendo cumprida com maestria pelo Flamengo: se tornar referência na América Latina, um farol de futebol bem jogado, mentalidade vencedora e conquista de títulos. E se aproveitar da enorme contradição entre o momento que a seleção argentina e os clubes argentinos atravessam. Desde 2019, apenas brasileiros venceram a Libertadores, sendo que em cinco das ocasiões, a final foi exclusivamente verde e amarela.

Atualmente, nosso campeonato é muito mais bem visto do que no passado. Os ótimos resultados dos brasileiros contra europeus no Super Mundial fecharam o gap de qualidade que todos imaginavam existir, tornando o pacote brasileiro atrativo aos olhos estrangeiros. Para além de seus resultados na Libertadores, reside aí a principal semente que o Flamengo precisa plantar. Atual campeão brasileiro em vias de revalidação do título, cabe ao clube carioca liderar a pacificação entre blocos da LFU e da Libra, pois a formação de uma liga brasileira com uniformização e melhoria de gramados, profissionalização da arbitragem e implementação de regras verdadeiras de fair play financeiro é uma urgência que extrapola fronteiras.

E o caminho para a consolidação do próprio Flamengo enquanto primeiro clube brasileiro supranacional.

Vinicius Paiva
O Idealizador
contato@audiencias.com.br

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