← Portal Audiências Portal Audiências
PORTAL AUDIÊNCIAS
O seu portal de inteligência esportiva
Portal Audiências
Vasco · Torcidas

Qual é o tamanho da demanda reprimida vascaína?

Contra o Boca, Cruzmaltino terá uma oportunidade rara de medir o potencial que ainda possui — e que parecia perdido pelo caminho.

A pergunta do título se tornou inevitável diante da semifinal da Copa Sul-Americana contra o Boca Juniors. Não apenas pelo tamanho do confronto, mas por tudo o que ele representa para um clube que passou a maior parte deste século distante do lugar que sua história lhe reservava.

Nas últimas décadas, o Vasco conquistou a Copa do Brasil em 2011, venceu escassos campeonatos estaduais e viveu muito mais calvários do que glórias. Foi neste período que o clube foi quatro vezes rebaixado, acumulando crises políticas e financeiras incomensuráveis. Também vivenciou a frustrada experiência de se tornar uma SAF, entrando em litígio com a 777 e maculando a esperança de que seus torcedores disputassem coisas grandes.

A final da Copa do Brasil de 2025, que terminou em derrota para o Corinthians, foi um episódio sinalizador do que pode acontecer quando o Vasco se vê novamente diante dos holofotes. Nesses casos, a única certeza é a de que sua torcida responderá.

Agora existe o Boca. À Bombonera, se seguirá a volta no Rio de Janeiro e a possibilidade de uma final continental que o vascaíno não experimenta há 26 anos, desde a conquista da Mercosul.

Mas a primeira resposta à pergunta sobre o tamanho da demanda reprimida vascaína precisa ser incômoda, uma vez que a verdade é que parte dela desapareceu.

A pesquisa Datafolha 2026, disponível no Portal Audiências, coloca o Vasco com 3% da preferência nacional. A despeito deste ser um número muito questionado pela torcida, fica menos difícil compreender que recortes etários em pesquisas apontam, há anos, para a redução no número de vascaínos em meio às faixas etárias mais jovens. Trata-se de um processo natural, que reflete a falta de exposição, protagonismo, títulos e ídolos.

O Vasco não tem hoje a torcida que teria caso atravessasse o último quarto de século em condições minimamente compatíveis com as dos vinte e cinco anos anteriores. O fracasso prolongado não apenas deixou milhões de vascaínos em agonia, como também afastou torcedores, enfraquecendo vínculos e impedindo que parte da torcida seguinte chegasse a existir. Crianças não escolhem seus clubes consultando uma sala de troféus, tampouco uma história rica.

Erosão geracional da torcida do Vasco

Isso não significa, contudo, que a torcida vascaína tenha deixado de ser grande e, principalmente, mobilizável, pois tamanho e fanatismo são coisas diferentes. O segundo tende até mesmo a se intensificar em meio aos sobreviventes da escassez. Nesse sentido, a final da Copa do Brasil 2025 demonstrou que o Vasco ainda conserva uma das bases de torcedores mais intensas do futebol brasileiro. Os 62,4 mil pagantes daquela ocasião proporcionaram a maior renda bruta do futebol brasileiro no ano passado (R$ 13,2 milhões). Mesmo com ingresso médio superior a R$ 210, não faltou gente querendo ir ao estádio. A receita líquida vascaína ficou em R$ 8,3 milhões.

Na TV, a partida marcou 27 pontos e 50% de participação no Rio de Janeiro. Na GE TV, a transmissão do jogo de volta alcançou pico de 4,63 milhões de espectadores simultâneos - informação que consta em nossa base de streaming. Trata-se de números ainda mais expressivos quando comparados ao cotidiano. Nas oito partidas do Vasco exibidas pela Globo no Rio de Janeiro em 2026 — excluído o clássico contra o Flamengo —, a média foi de aproximadamente 18 pontos. A final contra o Corinthians, portanto, representou um acréscimo próximo de 50%.

Aquela decisão provou que a torcida continua capaz de transformar oportunidades em um acontecimento nacional.

Salto de audiência e arrecadação nas grandes noites do Vasco

A derrota deixou negócios inacabados. Durante semanas, o vascaíno voltou a sonhar com o protagonismo. Tomou as redes sociais, aceitou pagar caro e produziu uma das maiores audiências do ano. Fez tudo o que uma torcida poderia fazer, sem receber seu torrão de açúcar ao final. A semifinal contra o Boca será, em alguma medida, a continuação emocional daquele episódio. Com o importante acréscimo de não se tratar de um adversário qualquer. O Vasco estará diante daquele que parte do imaginário esportivo brasileiro reconhece como a maior força da América do Sul.

O Boca possui capacidade própria de atrair público no Brasil. No Mundial de Clubes de 2025, Boca Juniors x Benfica alcançou mais audiência na Cazé TV do que dois jogos do Flamengo e do Fluminense na mesma fase de grupos. Já a final da Libertadores de 2023, entre Fluminense e Boca, marcou 41 pontos de audiência na Globo RJ, com picos de 45. Evidentemente, não se atribui aqui o resultado aos argentinos, era uma final de Libertadores no Maracanã, com um carioca disputando um título inédito. Ainda assim, o Boca acrescenta ao jogo uma dimensão que nenhum adversário sul-americano é capaz de oferecer.

Quanto à bilheteria, a medição será mais complexa. São Januário não poderá receber a semifinal porque a Conmebol exige capacidade mínima de 30 mil lugares a partir desta fase. Porém é bastante improvável que o Maracanã volte a ser utilizado.

Tanto o episódio envolvendo o Vasco SAF quanto os bastidores da crise entre Vasco, o Maracanã e a dupla Fla-Flu envolvem questões complexas, alegações válidas de parte a parte e flagrantes desrespeitos a contratos. Não nos caberá analisar tais nuances, mas seus efeitos econômicos e as restrições que elas impõem. E elas escancaram que a ausência do estádio Mário Filho proporcionará ao Vasco prejuízos irremediáveis.

O Maracanã permitiria ao Vasco estimar uma operação relativamente conservadora de R$ 8 milhões de receita bruta. No Nilton Santos, com capacidade 35% inferior, a bilheteria ficaria provavelmente abaixo dos R$ 6 milhões. Não são previsões, mas cenários passíveis de modificação por despesas, gratuidades, setores bloqueados e carga destinada aos visitantes. Ainda assim, a diferença potencial de alguns milhões de reais demonstra que o local da partida não impacta apenas a questão esportiva.

Também será a última oportunidade de uma grande bilheteria vascaína na campanha. A final da Sul-Americana será disputada em jogo único, em Barranquilla. Caso elimine o Boca, o Vasco se despedirá do Rio e viajará à Colômbia para decidir o título. Obviamente, este é o cenário sonhado.

Uma eventual classificação traria premiações, valorização da marca, novas adesões ao programa de sócios e exposição a patrocinadores. O título acrescentaria uma vaga na Libertadores, a disputa da Recopa e a possibilidade de iniciar um novo ciclo esportivo e comercial – desde que o rebaixamento no Brasileirão deixe de ser uma hipótese ainda longe de ser afastada.

Mais importante do que tudo, contudo, estaria a reconstrução afetiva. Contra os argentinos, o Vasco terá a maior oportunidade dos últimos anos de medir a demanda que a via-crúcis não extinguiu. Um vascaíno de 20 anos não viveu a era de ouro de 1997 a 2001. Suas memórias foram forjadas em rebaixamentos, dívidas, disputas políticas e promessas falsas de reerguimento. Eliminar o Boca não devolveria os torcedores perdidos pelo caminho. Mas poderia aliviar o desalento que hoje aparece nas pesquisas — e oferecer aos que permaneceram um novo episódio de resistência.

Vinicius Paiva
O Idealizador
contato@audiencias.com.br

Comece a explorar